Você conhece Lapônia, a terra do Papai Noel? A única coisa que eu sei é que fica na Finlândia e que faz muuuito frio. Mas uma querida amiga chamada Daniela Aiach foi passar o reveillón lá e fez bem belíssimo relato de sua viagem com 1001 dicas pra gente. Confira. 🙂

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26 de Dezembro foi o dia de partir para a tão sonhada viagem à terra do Papai Noel. Sim, a terra do Papai Noel. Aquela que tem muita neve, trenós com renas, fábrica de brinquedos e elfos.

 


Localização

A casa do Bom Velhinho fica no Polo Norte, na cidade de Rovaniemi, na região da Lapônia, no extremo norte da Finlândia. Pois é, esse lugar existe e eu estive lá.

Lapônia é uma das 19 regiões da República da Finlândia e possui apenas 183.775 habitantes (2009), que representam os 3,6% da população do país. Ela faz fronteira com a Suécia a oeste, a Rússia a leste e com a Noruega ao norte, enquanto a Estônia está ao sul, através do Golfo da Finlândia.

Devo confessar que meus conhecimentos sobre a Finlândia, um dos países da gélida Escandinávia, se resumiam àquilo que quase todos sabem: eles criaram a Nokia, são os maiores consumidores de sorvete do mundo e gostam de fazer sauna.

Aliás, a Escandinávia na verdade abrange apenas a Dinamarca, Suécia e Noruega. Mas, num sentido mais amplo, existe a Finoescandinávia, que pode abranger a Finlândia, as ilhas Feroé e a Islândia.

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A Finlândia é esse país destacado de vermelho.


Como chegar na Lapônia

Para chegar, voei 11 horas até Paris, de lá fui para Helsinque, capital da Finlândia, mais 3 horas, e de Helsinque para Rovaniemi, em 1 hora. 16 horas de vôo em um dia e meio.

Cheguei a Rovaniemi e deparei com um aeroporto bem pequeno, porém charmoso, com uma única esteira, um motorista à minha espera e 200 graus abaixo de zero lá fa. Motorista esperando é algo de primeira necessidade, já que alugar um carro me parece meio arriscado e um táxi, ops, não vi nenhum quando saí do aeroporto.


O que levar à Lapônia

Para aqueles que acham que -2o e -20o são a mesma coisa, sinto informar, mas vocês estão redondamente enganados. 20o negativos significa um frio que gela os ossos. Portanto, em sua mala de mão você deverá ter todos os acessórios que te protegerão do frio entre o aeroporto e o hotel. Estou falando de luvas, cachecol, botas, gorro, casaco e uma “mudinha” de roupa com uma peça íntima. Sim, uma mudinha de roupa e uma peça íntima. Foi o que me salvou. Porque, pasme, minha mala foi extraviada! Mas isso é um capítulo à parte.

O motorista e seu freezer de quatro rodas (como ele mesmo chamou o seu carro, que por alguma razão desconhecida não tem aquecimento)

Levei uns dois dias para descobrir que a cidade tinha tudo o que uma cidade habitável tem: um shopping de porte médio, lojas, restaurantes, cafés, lojas de souvenirs e farmácias. Portanto, não pense que você está indo para o fim do mundo. Na verdade, você está indo sim para o fim do mundo, mas um fim de mundo com infraestrutura e tecnologia.

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Clima na Lapônia

O sol em Rovaniemi nasce às 11h30 e se põe por volta das 14h30. São 3 horas de luz e o restante do dia em completa escuridão. Nosso corpo, moldado num país tropical, à base de muito sol e calor, tem certa dificuldade em se adaptar a algo tão diferente. São oito meses de inverno, muita neve e escuridão. Os quatro meses restantes são a primavera deles, quando aquele sol tímido do inverno aparece resplandecente e nunca vai embora. É isso mesmo que você leu, 24 horas de luz.

Nessa altura do campeonato você deve estar se perguntando: que tipo de gente que vive num lugar desses, onde as temperaturas chegam a 50o negativos e a escuridão impera? Um tipo de gente muito simpática, gentil e hospitaleira. Vikings do mundo moderno, que ainda caçam ursos, mas que te recebem com sorriso no rosto, inglês impecável e calor humano. Eu disse calor humano! Quanto a isso não há com que se preocupar.


Hospedagem na Lapônia

Rovaniemi tem uma série de tipos de hospedagens, de quartos de hotéis a chalés, para todos os gostos e bolsos.

Passei a primeira noite no Hotel Sokos Vaakuna.

A partir do segundo dia, passei a me hospedar no hotel Rantasipi Pohjanhovi, num quarto bem amplo, limpo e confortável.

Na Santa Claus Village – localizada 8km a noroeste de Rovaniemi e a 2 km do aeroporto de Rovaniemi- você encontra um hotel todo feito de gelo. Mesmo que não se hospede lá, vale a pena conhecê-lo por dentro. Algo assim inimaginável, como dormir numa cama de gelo! E existe uma técnica para isso.

Em Saariselka, existe um hotel chamado Kakslauttanen que possui desde cabanas de madeira aos tradicionais iglus de neve. O hotel também possui um tipo de construção em vidro térmico que ajuda a preservar o calor interno e mantém a vista dos hóspedes limpa para que possam observar as milhares de estrelas que aparecem no céu da Finlândia, além claro, do fenômeno que colore o céu da região, a Aurora Boreal.

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Hotel Rantasipi Pohjanhovi

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Hotel Snowman World

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Hotel Kakslauttanen, em Saariselka, na Finlândia. Mantém seu corpo aquecido para assistir à Aurora Boreal tranquilamente

 


Gastronomia da Lapônia

A comida, capítulo à parte, é razoável.

Os peixes lideram a lista dos alimentos mais comuns, com o salmão na comissão de frente.

Poucas opções de frutas, verduras e legumes e uma iguaria, presente em quase todas as mesas e de consumo nacional: a carne de rena! A rena, aquele ser “chifrudinho” que carrega o Papai Noel e seu trenó.

Espero que você não tenha pensado que seria possível comer uma bela carne de boi, uma picanha talvez, nos restaurantes da região.

Não em Rovaniemi. Pense, o gado não sobreviveria a circunstâncias tão hostis. O ser “chifrudinho” é parrudo, aguenta o frio, e sua carne, de gosto forte, tem consistência fibrosa.

Para as crianças, você pode dizer que é um picadinho, que nem aqueles que fazemos no Brasil. Elas vão comer e adorar. A iguaria é servida, quase sempre, com purê de batatas e uma geleia de frutas vermelhas para acompanhar.

Ao mesmo tempo em que a rena é uma das grandes atrações, com seus chifres charmosos e seu histórico natalino, sua carne é a principal fonte de alimento da região.

O leite é usado para consumo humano.

Ursos também servem como alimento na Lapônia, mas são bem mais caros e preferi não provar. Diria que é muito “selvagem” para o nosso gosto.

Teve uma noite que fui jantar no Snowland, um restaurante em forma de iglu, todinho feito de gelo!

Paredes, mesas e piso. 11o negativos era a sensação térmica, menu delicioso com sopinha de cogumelos, carne de rena, cheesecake de sobremesa e um suquinho de cidra (que lá é servido quente).

A única garçonete do local, uma jovem senhora de 70 anos (embora se movimentasse como se tivesse 20), te recebe com um grande sorriso e te direciona à sua mesa.

Bancos revestidos de pele para não gelar seu traseiro e um cobertor bem quentinho te esperam.

Esse restaurante é construído todos os anos em meados de outubro e derrete sozinho em maio, quando começa a primavera.

Algo que merece um destaque: o chocolate quente de Rovaniemi. Ah, que delícia! E não é feito de leite de rena, não! Peça com bastante chantilly e aproveite.

 

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Restaurante Snowland (foto: divulgação)

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Restaurante Snowland (foto: divulgação)


Passeios na Lapônia

Minhas aventuras em Rovaniemi começaram no Santa Claus Park, uma caverna onde você é recebido por um(a) elfo(a) sorridente, que te dá as boas-vindas ao mundo mágico do Papai Noel.

O ingresso dá direito a uma visita à escola de elfos (onde tudo é falado em inglês, russo e finlandês), à oficina de Papais Noéis de papel (você faz um e deixa pendurado na parede para a posteridade) e uma viagem de trenzinho.

Se quiser, pode almoçar lá (um bufê com um tipo de carne – de rena, sempre! –, um tipo de peixe, acompanhamentos, sopa e salada) e enquanto almoça assistir a um showzinho de dança com os próprios elfos.

Há também uma doceria, onde a criança enfeita seu próprio cookie e o leva para casa, e o correio do Papai Noel. Fora as lojinhas temáticas com bugigangas de inverno e souvenirs. E renas de pelúcia por todos os lados, prontas para ser compradas e levadas para países mundo a fora.

No dia seguinte, fui à Santa Claus Village, um complexo de lojinhas e cafés, onde fica o escritório do Papai Noel, o Santa Claus Office.

É ali que se encontra a maior atração da cidade… o próprio! As crianças têm que subir alguns degraus de uma escada até chegar a ele, o que só faz aumentar a ansiedade de vê-lo.

O encontro dura pouco menos de 15 minutos e algumas fotos são tiradas, que você pode levar para casa, por um preço salgadinho, juntamente com um vídeo.

Vale ressaltar que o preço de tudo é meio salgado em Rovaniemi. 60% da população da cidade trabalha no turismo, que, – não preciso dizer, é a principal fonte de renda deles.

Algumas agências de turismo espalhadas pela cidade oferecem pacotes com atividades que vão desde um simples passeio ao escritório do Papai Noel até uma excursão na floresta para ver a aurora boreal.

Mesmo sendo salgado, recomendo que você contrate uma delas, porque sozinho será difícil organizar qualquer coisa por lá.

Fui ainda a uma fazenda centenária, onde se cria renas há muitas gerações.

Fiz um trajeto sendo puxada por elas, participei de um ritual xamã e escorreguei nos escorregadores naturais de gelo.

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Santa Clauss Village

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Esportes

Andei de snowmobile na floresta, visitei uma fazenda e montei uma rena, jantei num restaurante todo de gelo e passei o Réveillon com o Bom Velhinho. Fiz quase tudo o que a cidade tinha para oferecer e voltei com lembranças inesquecíveis.

A Santa Claus Village é onde tudo acontece e foi de lá que saí para o passeio com o snowmobile.

Na aventura estão inclusos macacão impermeável (que você, aqui no Hemisfério Sul, jamais pensou que precisaria usar na vida), luvas, botas e capacete.

Tudo isso em cima da roupa que você já estará usando, portanto, você = astronauta! E não foi suficiente para mim. Após 45 minutos meus pés já estavam congelados e tínhamos mais uma 1h15 de passeio.

Escolha o passeio de 1 hora, é mais que suficiente para a aventura.

Os adultos vão dirigindo a própria moto e as crianças vão num trenó.

Esse trenó é puxado por um guia, que sinaliza com movimentos da mão quando ir mais devagar, mais rápido ou parar.

A atividade é super segura e não exige conhecimento técnico e nem habilidades especiais.

Aqui vale uma parada: no meio da jornada o sol se pôs e a escuridão veio, trazendo um vento gelado e uma sensação de paz. É, paz. O silêncio da floresta, o visual branquinho e o reconhecimento de estar vivendo algo único me trouxeram um sentimento de gratidão pela natureza e pela oportunidade. Kiitos!

Ah, esqueci-me de dizer que a única e necessária palavra que aprendemos em finlandês foi kiitos. E se fala assim: kiiiiiiitos. Significa obrigado(a).

Precisa aprender mais alguma palavra para expressar o que sentimos quando vivemos algo único? Não, né?

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O Reveillón na Lapônia

O Réveillon foi no restaurante Santamus, também dentro da Santa Claus Village.

Um lugar pitoresco, com lanternas à meia luz e bonitos casacos de pele, que pudemos ver vestidos por mulheres russas.

Aparentemente essa é uma região muito frequentada pelos nossos amigos russos (vai ver a Sibéria não é fria suficiente para o gosto deles).

Brincadeiras à parte, há russos por todos os lados na cidade, bem como chineses, japoneses e coreanos.

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Restaurante Santamus (foto: divulgação)


Conclusão

Prepare-se para pagar caro por quase tudo e encontrar um povo hospitaleiro, amistoso e gentil.

Mas não espere serviço de resort dos EUA. Você não está nos EUA; as pessoas que te servem, na grande maioria, talvez nunca tenham saído de Rovaniemi. Ou seja, não espere serviço rápido, trocas de última hora e concierge eficiente.

Mas os celulares funcionam, a internet pega bem e a vida segue.

Minha mala, que, by the way, nunca mais apareceu, deve certamente ter se perdido nas montanhas geladas de Rovaniemi, onde o sol se esconde, as renas brincam na neve e as pessoas vivem na escuridão, mas o coração, ah!, esse é bem quentinho lá.

 

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Texto: Daniela Aiach, diretora de eventos e de sustentabilidade da Amcham

Fotos: Daniela Aiach e Divulgação


 

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