Caminho de Santiago de Compostela

El Camino. Pretende percorrer o Caminho de Santiago de Compostela?

Veja nossas dicas!

Hoje falaremos do Caminho de Santiago de Compostela, Grace Knoblauch é uma grande amiga, que adora viagens exóticas.

Já foi 2 vezes para a Índia, convivendo com famílias típicas do Rajastão, fez o Rally dos Sertões, escreveu um livro sobre isso e, no final do ano passado, fez o Caminho de Santiago, sobre o qual também está preparando um livro.

Então, eu não poderia deixar de convidá-la para escrever aqui no Mil e Uma Viagens, né? Tenho certeza de que irão gostar!

Mapa de Santiago de Compostela

Mapa (crédito: www.lacompostela.com )

Preparação

Era julho, eu planejava uma viagem para o Sul da Espanha, com uma amiga, por acaso a editora desse blog, a Dalila.

Compramos um guia de viagens. Quando vi o mapa passei com os olhos pelos nomes das cidades. Ao ler “Santiago de Compostela” eu ouvi em pensamento o som de sinos de igrejas medievais. Fechei o guia e disse a mim mesma “Vou fazer o Caminho”.

Eu tinha menos de 2 meses para me preparar mas consegui cumprir.

Primeiro, comprei a bota para acostumar os pés.

Entrei em contato com pessoas que fizeram o Caminho para pegar as dicas. Segui todas.

Caminhava todos os dias 6km pela manhã. Inicialmente sem a mochila, depois coloquei 7kg de livros para me acostumar com o peso.

De finais de semana fazia 25km de sábado e 25km de domingo.

Isso me dava a resistência da longa caminhada em sequência. Leva-se pouca coisa. Essa é a parte boa.

Você faz sua mala em um dia.

O principal da preparação é o equilíbrio.

Eu divido em 3 aspectos: Físico, mental e espiritual

Físico envolve seu corpo e seu equipamento. Você tem tudo que precisa? A mochila e a bota estão confortáveis? Você está em plena saúde?

No aspecto mental está a sua capacidade de lidar com limites. Você andará muitos km por muitos dias. Saber que a cada dia é um caminho em si, te leva a reconhecer limites. Hora você irá superá-los com Coragem, hora irá temê-los por prudência. A parte mental lhe confere a visão do que está vivendo, é o seu juiz, advogado e testemunha.

A parte espiritual envolve os aspectos não explicados pelo limitado pensamento cartesiano. Você vai “morrer” no Caminho de Santiago, é preciso ter uma base dentro de si mesmo para reconhecer esse ponto, e renascer de si mesmo. É um processo muito lindo, e isso ocorre todos os dias.

Alongando de manhã antes de sair de Viana.

Alongando de manhã antes de sair de Viana.

 

Cansaço 

Houve muito desgaste durante o passeio! Mas nada que me impedisse de prosseguir.

Caminha-se entre 25km e 35km por dia. Dia a dia.

Não tem o dia seguinte para se recuperar. No dia seguinte você continua.

Então você pensa que irá se cansar mais. Aí está a beleza da persistência.

Dia a dia você vai ficando mais forte e aprende a lidar com seu corpo e equipamento.

O nível de stress que você vive é tão intenso e tudo fica tão sensível, que um desequilíbrio no seu jeito de caminhar, pode gerar uma dor nas costas, mas você pode colocar uma blusa fofinha entre as costas e a mochila para amenizar.

Dentro de uma bota úmida a mais de 40oC, uma pequena unha que não está bem lixada, pode rasgar sua pele e gerar uma enorme ferida.

Andar muitos quilômetros sem parada ou no esquecimento de tomar água pode levar a um desgaste muito grande do seu corpo.

Por isso a importância de se ouvir, desgaste sempre há, essa é uma verdade que não temos como fugir, mas o excesso pode ser evitado quando aprendemos a nos ouvir mais.

Colocando o pé "de molho", literalmente.

Colocando o pé “de molho”, literalmente.

Escolha do sapato e das roupas

Isso varia muito de acordo com a estação do ano. Como fui no final do verão, começo do outono, passei calor e frio. Mas o que vale é o conforto.

Eu comprei uma bota de cano alto da North Face (2 números a mais que o meu, pois o pé incha muito, se ela estiver apertada irá causar bolhas).

Levei uma mochila da Deuter, foi a que mais gostei.

A calça, camiseta e roupa íntima eu não fiz questão de marca, fui na opção de um tecido que  secasse rápido.

A meia eu não recordo a marca, mas usei duas.

Uma em contato com o corpo especializada em tirar o suor (meu pé sua e é muito quente), e outra mais grossa para deixar a bota confortável.

 

Bota de cano alto da North Face

Bota de cano alto da North Face

 

Alimentação

O Caminho de Santiago é muito saboroso!

Durante o dia eu costumava comer frutas.

Sempre tinha um pedaço de pão na mochila, ou um tomate ou queijo de cabra.

Ao longo do caminho existem muitos “bares”, que são como cafeterias, das mais rústicas e rurais às mais sofisticadas com WI_FI.

Uma tostada (pão na chapa) com café com leite na saída é sempre bem-vinda.

Cada pessoa tem uma constituição ideal. O certo é ter energia, força nos músculos e estar hidratado.

Toma-se vinho, pois passamos pela Rioja, come-se peixe, pois passamos perto da costa, principalmente no final, na Galícia.

As tortillas são deliciosas, a torta de Santiago feita de amêndoa é uma iguaria, e o creme catalão… As sopas são excelentes.

Enfim! O trajeto é especial também pela sua gastronomia.

 

 

Gastronomia em Santiago, Roubando uva nos vinhedos da Rioja

Gastronomia em Santiago: Roubando uva nos vinhedos da Rioja

 

Degustar um bom vinho espanhol

Existe a possibilidade de entrar nas cidades e aproveitar alguns bares e restaurantes. Aqui, fiz uma pausa para desgustar um bom vinho espanhol.

 

Tortillas espanholas, todos os dias

Tortillas espanholas, todos os dias!

 

Merluza para o jantar

Merluza para o jantar. Humm

 

Peixe direto da fonte

Peixe direto da fonte.

 

 

Rotina

Era uma rotina. Acorda-se de manhã, às 6h30m, escova os dentes, toma um café no albergue ou em alguma cafeteria.

No início eu parava a cada hora, tirava a bota para secar os pés, me alongava e tomava um pouco de água.

Depois fiquei mais forte, e passei as pausas para cada 2 a 3 horas.

Sempre alongando, sempre bebendo água. Lembrando que água é peso na mochila.

Eu tinha uma garrafinha de 700ml para emergência e sempre bebia das fontes de água potável ao longo do caminho. Almoçava algo simples nos restaurantes.

Costumava chegar às 14hrs, tomava banho, vestia a roupa do dia sequinte, lavava a roupa suja, extendia no varal. Saía para comer e visitar a cidade.

Voltava para o albergue. Pegava a roupa seca do varal. Arrumava a mochila para o dia seguinte. Atualizava o diário.

Às veses ia à missa de peregrinos às 20hrs.

Dormia até às 22hrs, para no dia seguinte retomar tudo.

No vídeo abaixo: Casamento em Belorado. Uma noviça casando com Deus. Últimos instantes antes da clausura no Convento de Santa Clara.

Sentimento

Trago de especial a confiança nas forças que regem a vida.

Uma viagem assim é diferente de tudo. É uma viagem dentro de si mesmo.

Eu andei sozinha 1000km por 40dias.

Encontrei pessoas do mundo todo.

Passei por muitas vivências e a sensação ao término de cada dia era a mesma: gratidão e a confiança de que tudo tem uma razão de ser e estar.

O Caminho começa quando você decide fazê-lo. Toda uma corrente de forças e conexões começa a se formar em direção a esse objetivo.

Completar o objetivo é uma vivência dinâmica. Você vive a catarse do fechamento de um ciclo, agradece, sente, interioriza, ao mesmo tempo deve desapegar.

É incrível essa sensação ao término, durante quarenta dias precisei desapegar de algo material ou emocional para seguir em frente.

Tudo pesava, os objetos ou as experiências desagradáveis do passado.

E você precisa se soltar, estar leve para ascender.

Ao término eu percebi que o Caminho é um ZIP da vida e para retomar o próprio Caminho vital, que é maior, e abrange o próprio Caminho de Santiago, eu tive que me desapegar daquilo que foi a grande experiência, despegar da forma ilusória e seguir com o resultado que ela me deu, seguir com a pessoa que me tornei.

Esse é um grande desafio, mas é a única forma de você seguir a vida,  numa nova consciência, numa nova perspectiva.

Desapegar DO Caminho, e seguir com o SER que o Caminho te formou.

Labirinto Celta

Labirinto Celta

 

Monte do Perdão

Monte do Perdão, para mim, um dos pontos altos da viagem. Apesar da brincadeira na foto, é um dos lugares que mais me gerou profunda reflexão.

 

Cajado ideal para o peregrino

A busca pelo cajado ideal. Quando o peregrino encontra o seu cajado, é pura emoção. Ao final do caminho, a gente joga o cajado sobre as pedras ou corta ele em pedaços.

 

Catedral de Santiago, onde está o sepulcro do apóstolo

A emocionante chegada à Catedral de Santiago, onde dizem estar o sepulcro do apóstolo.

 

flordelis caminho

 

Final do caminho

Final do caminho.

Roteiro

Foram cerca de 1.000km em 40 dias.

Existem várias opções de roteiro. Você iniciar por Sevilla – Via de la Plata, por Portugal, por Madrid, entre outros. Eu optei pelo Caminho Francês.

Saí na direção Oeste-Leste de Saint Jean Pied de Port no Sul da França, atravessei os Pirineus até a Espanha, passei pela região da Navarra, Rioja, Castilla e Leon e finalizei na Galícia, onde está a Catedral em Santiago de Compostela, mas não parei por aí, segui mais 3 dias até Finesterre e depois, pela primeira vez, na direção Sul-Norte para Muxia, onde terminei meu Caminho sobre as pedras, olhando o mar aberto, ao lado da Igreja de Nossa Senhora da Barca.

Aqui é interessante contar que, para os celtas, Leste- Oeste, ou seja Nascer do Sol ao Pôr do Sol é um caminho que favorece a manifestação do espírito. Te ajuda a descobrir qual a sua missão.

E ao percorrer Sul- Norte você rende homanagem aos antepassados.

E como esse caminho já era percorrido há muito tempo pelos celtas e druidas, é claro que optei por este. 🙂

Descobri no meio do caminho que a única relação do Caminho com o apóstolo Tiago é o nome, como  homanagem que os espanhóis deram a ele, uma vez que foi lá que ele evangelizou.

Caminho Francês

Caminho Francês (fonte: santiago.org.br)

Estrutura 

Vale dizer que optei por frequentar os albergues municipais, onde somente são aceitos os peregrinos, apresentando-lhes na entrada uma credencial. A diária nestes albergues custam por volta de 6 euros e claro, são os mais roots.

Como uma segunda categoria tem os albergues particulares, que custam muito pouco a mais, de 8 a 10 euros e já tem uma estrutura melhor, como colchões maiores.

Você pode optar, ainda, por ficar em hotéis 4 ou 5 estrelas, como o Parador, que se localiza bem em frente à Catedral de Santiago, na faixa de R$ 800 a diária ou o São Francisco Hotel e Monumento, um mosteiro histórico, que dispõe de piscina coberta e banheira de hidromassagem, localizado no centro de Santiago de Compostela, a 150 m da catedral, com uma diária de aproximadamente R$433,00.

Portanto, engana-se quem pensa que para percorrer o caminho você deve estar despojado de conforto o tempo todo. Não! Você pode percorrer o caminho como peregrino durante o dia e descansar como um rei à noite, desfrutando de excelentes restaurantes.

Além disso, existe a possibilidade de contratar algumas empresas para carregarem sua mochila, como a Jacotrans e outras como a Experience Plus que dão suporte aos ciclistas, incluindo um guia turístico, caso assim queiram.

Bicigrinos

Bicigrinos (crédito: OGlobo.com)

Quarto do Hotel Parador

Quarto do Hotel Parador (crédito: site oficial do hotel)

Restaurante do Hotel Parador

Restaurante do Hotel Parador (crédito: site oficial do hotel)

Fachada do Hotel São Francisco e Monumento

Fachada do Hotel São Francisco e Monumento (crédito: site oficial do hotel)

 

Preços

Ao total eu gastei, em 40 dias, incluindo a passagem, 3 mil dólares. Para comida, gastava no máximo 35 euros por dia e hospedagem, 10 euros, mais alguns souvenires básicos porque, afinal, não dava pra carregar muito peso. Mas, como eu disse acima, pode-se gastar muito mais que isso.

 


Baixe aqui a primeira parte do livro de Grace relatando tudo sobre essa linda viagem, O Relicário de Compostela: http://livrorelicario.blogspot.com.br


 

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8 Comentários

  • Responder
    19/09/2014

    Uauuu…..muito bacana a história dela e sua perseverança em alcançar o seu objetivo.

    Parabéns Dalila por contar no seu blog e a Grace pela sua incrível viagem!!!

  • Responder
    Cintia
    19/09/2014

    Ótimo texto. Que garra menina rs. Caminhar tudo isso deve ser cansativo, mas, essa jornada é muito mais que corpo e o espírito deve agregar cada pedacinho da experiência. Só faltou o nome do livro né?! Parabéns Grace e Dalila pelo blog. 🙂

  • Responder
    20/09/2014

    This is a trip I would like to have made myself! Grace’s description is absolutely fantastic, true, genuine, sincere …in fact it is the discovery of one’s self, with no “apego” to anything….just you and your own self…it is very good company, it gives reason to your life, makes you know why you are here, on this earth, and makes you thankful to your Creator for having created you! I loved it!!!

  • Responder
    Renato
    22/09/2014

    Peregrina Iluminada. ..

  • Responder
    27/02/2015

    Adorei seu blog, muito util e com informacoes importantes sobre o caminho. Em setembro de 2014 fiz o meu ultimo caminho e como varios amigos me perguntam o que levar na mochila criei um video mostrando tudo o que levei.
    http://www.meucaminhodesantiago.com/baixe-a-lista-do-que-colocar-na-mochila/
    espero que seja util, e tambem falo do que nao levarei na proxima vez. Isso é importante considerando que quanto menos pesa a mochila melhor….
    Continue seguindo seu blog. Abracos.

    • Responder
      28/02/2015

      Oi Diego.
      Obrigada pela contribuição, com certeza será muito útil aos seguidores do blog.
      Volte sempre por aqui! 🙂
      Vou ver seu vídeo.
      Abcs,
      Dalila.

  • Responder
    Marcelo
    11/06/2015

    Estou lendo o relato, que por sinal muito bem escrito e rico em informações, porém como no topo da página tem uma foto menor, o texto fica subindo e descendo. Dá para ler, mas fica meio ruim rsrs
    Abraço, Marcelo

    • Responder
      19/02/2017

      Marcelo,
      Esse texto infelizmente saiu desconfigurado e não faço ideia do porquê.
      Você consegue me ajudar? 🙂